28 de janeiro de 2008

Lava

Lava-me os olhos, ó deus, de toda esta terra seca e granulada, todos estes estilhaços de espelho e sombra invadidos pelo orgulho. Lava-me os olhos, ó deus, de todas estas palavras vãs e seguras com que oro também e a ti me dirijo, todos estes indícios de espelho e luz invadidos pela vaidade. Lava-me os olhos, ó deus.

(Que eu pudesse calar-me, e nesse silêncio acolher-te e então falar. E no entanto aqui estou, emparedado entre o silêncio que te esvazia e o dizer que te encobre. Ajuda-me, ó meu senhor e meu deus.)

Lava-me as mãos, ó deus, os dedos, as unhas, os músculos, e o terrível uso. Lava-me os nervos, a memória, as entranhas, o coração, a inteligência. Ó deus, que eu veja para que seja, lava-me.

(Que eu pudesse quedar-me e nessa retenção abraçar-te e então agir. E no entanto aqui estou, emparedado entre a quietude que te afasta e o acto que te nega. Ajuda-me, ó meu senhor e meu deus.)

Lava-me os dias, ó deus, de toda esta lenta pressa e desadequação, de toda esta confusão ordena-me no teu sentido. Faz com que todos os meus males sejam traços para o teu rosto, falhas que me completem. Ajuda-me, ó meu senhor e meu deus.

Que eu veja para que sejas, lava-me.
Ó deus, que eu seja para que veja, lava-me.
Que tu vejas para que eu seja, lava-me.

E assim seja em nome da divindade, no seu haver, no seu verbo e no seu espírito, ámen.

3 comentários:

joaquim disse...

Amen.

Amelia Elizete Moura Teixeira disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Amelia Elizete Moura Teixeira disse...

Que o Espirito Santo atue em mim , lava me oh Deus.Assim seja obrigado Senhor